O dia em que o avô de Jean correu

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Gente, primeiro causo. Escutei essa do Jean, um refugiado do Congo aqui do RJ. Conheci ele na região da Gamboa no início do ano. Ele me contou que essa história está há tempos na família dele, do avô do avô do avô. Da época que os belgas ainda eram colonizadores e senhores de lá.

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Diz ele que, na parte sul do país, onde o avô-do-avô-do-avô morava, o administrador era um belga deveras violento. Maltratava e açoitava a todos. Ele adorava dizer, além disso, que não conseguia identificar um congolês do outro, “vocês são todos horrendos e iguais!”

Conta o Jean que um belo dia o ditadorzinho resolveu fazer uma aposta com o povo. Ele se orgulhava de ser um grande corredor, reforçava que os europeus eram uma raça superior. “Apostaremos uma corrida, eu e qualquer um dessa tribo. Se eu vencer, prometo que irei embora”

O povo se reuniu de noite e o avô de Jean, que era muito sabido, teve uma idéia: mandou que buscassem tinta branca e trouxessem para ele. Passaram a noite dançando e comemorando ao redor da fogueira. Pareciam já saber que a vitória viria!

Dia seguinte, Avô de Jean chegou e se apresentou como o competidor. O Ditadorzinho estava todo equipado e anunciou: a corrida envolveria chegar em três pontos: uma árvore, a beira de um rio e o topo da maior montanha da região. O avô tinha a cara pintada de branco e descalço.

A corrida começou e o europeu logo se embrenhou no mato. Tinha certeza que venceria. Chegou no primeiro ponto e tomou um susto: encostado na árvore, palitando os dentes, estava o avô de Jean. Tinha o rosto pintado de branco e um grande sorriso.

O Europeu não se fez de rogado: nem tomou fôlego e já correu para o segundo ponto, a beira do rio. Deixou o africano para trás. Chegava na beira do rio quando, surpres! O Avô já estava lá, dançando de maneira envolvente. “Não é possível!”, gritou.

Empurrou o africano para o rio, trapaceando, e continuou correndo, dessa vez para o último lugar: o topo da montanha. O caminho era longo, foi se machucando, os sapatos de couro caíram e os pés começaram a sangrar. Foi subindo, subindo.

Claro, chegou no topo e lá estava o avô de Jean. Fingia que dormia e deu um longo bocejo “Homem, estou há tanto tempo aqui em cima que até já me sequei daquele banho de rio”. O Europeu ficou possesso, não aceitava ter perdido para aquele homem negro. Ainda tentou reclamar.

Ameaçou, reclamou, mas não teve jeito. Teve que ir embora e foi dia de grande festa na tribo.
Jean terminou de me contar eu perguntei “Mas o burro do europeu não percebeu que seu vô pintou todo mundo de branco e, aproveitando que era ‘iguais’, espalhou as pessoas pelo caminho?”

Jean fingiu indignação, “Não houve roubalheira alguma!” O Vô era realmente rápido e correu muito. A solução era simples: ele estava presente no corpo de todo mundo da aldeia, o europeu realmente encontrou com ele em cada pedacinho daquele chão. Fim!

O Congo é um país fascinante da África e passou por um verdadeiro genocídio perpetrado pela Bélgica: o “holocausto esquecido”. O melhor livro sobre isso é esse aqui.

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Bárbara Garcia é professora de Geografia em São Gonçalo, RJ. Virou catadora de histórias sobre a África e o Oriente Médio para contar para os alunos e alunas.

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